Relato Regata Rei Olavo V - 2004

Por: Renato Copello Lamarca e Celso Carvalho

Barco: Sudoca 2

Data: 30/08/2004

A pedido do nosso mais experiente velejador de monotipo da Flotilha BarraVela, Antônio Basílio, escrevemos a seguir o relato sobre as dificuldades passadas por nós na regata Rei Olavo V patrocinada pelo Iate Clube do Rio de Janeiro em 28/08/2004, narrado agora pelo Renato. 

1. No início tudo é festa

Como sempre, fomos os primeiros a chegar ao ICRJ na manhã do dia da regata, com cinco Dingues e dez velejadores devidamente uniformizados.

Montamos os barcos e partimos em direção a raia da Escola Naval aproximadamente as 12:20h. Com quase zero de vento, fomos nos arrastando. Sabíamos que a previsão era de Sudoeste com pico de 9m/s, segundo a previsão do CPTEC, mas não acreditamos em um possível excesso de vento. Levamos pouco mais de uma hora para chegar nas proximidades da Escola Naval.

2. A tentativa de participar da Regata

No caminho para Escola Naval o sudoeste entrou com força e foi aumentando.

A classe Dingue largou na 7ª e última bateria. Como estávamos com pouco peso e o vento foi aumentando com rajadas de até 35 nós, no meio do contravento estolamos por três vezes, na terceira uma vaga virou o barco. Neste momento teve início o nosso sofrimento, o barco imediatamente adernou (180 graus), estávamos no meio da Baía agarrados ao casco com ventos fortes e vagas de tamanho considerável para um monotipo. Tentei subir no casco sozinho, mas estava muito polido e molhado, o que tornava uma tarefa quase impossível. O Celso me ajudou puxando a minha mão até alcançar a bolina, o que foi possível após a segunda tentativa. Levantei toda a bolina e usei toda força que ainda restava até retirar quase o mastro da água, mas chegamos num ponto em que não era possível trazer o barco, simplesmente, não tínhamos mais força, estávamos esgotados, as vagas e o vento não ajudavam,  fui obrigado a largar a bolina, o que fez o barco adernar novamente. Neste momento só nos restava pedir ajuda. Pedimos ajuda para duas tripulações de Snipes que passaram direto. Foi então que resolvi utilizar o apito, que a minha querida esposa me deu pela manhã, e que estava no meu colete salva-vidas. Isto que é sexto sentido!

Tinham tantos barcos virados, que os botes de apoio não davam conta do resgate.  Vários botes passaram próximos de nós, mas nem olhavam.

As meninas de Laser pareciam ser a prioridade. Até que finalmente o tripulante de um bote deu atenção para nós. Inicialmente ele pediu para aguardarmos o salvamento de um Laser, mas acabamos convencendo a nos resgatar primeiro, estávamos esgotados.

3. O Resgate

O bote se aproximou do nosso barco e foi aí que conhecemos o Alexandre. Como estávamos exaustos pedimos para subir no bote, o que foi uma tarefa bem complicada, subir num bote sem apoio, com vagas batendo no bote e sem forças.  Com o cabo de reboque emparelhamos os barcos e subimos no Sudoca, levantamos a bolina e juntos puxamos o barco em nossa direção, foi então que cometi uma falha ao cair na água me afastando do bote o do Sudoca. O Alexandre subiu no Sudoca e o preparou para o reboque, e o Celso sofreu para conseguir se aproximar de mim com o bote em meio as vagas. Após várias tentativas consegui segurar uma alça do bote e depois de muito esforço embarquei. Emparelhamos novamente para trocarmos de barcos, o Celso foi no bote e eu fui no Sudoca mantendo o leme reto.

Infelizmente, o bote tinha que transferir o barco para outro barco nos rebocar, ele nos levou até próximo a lage da entrada da Baía onde estava uma traineira do ICRJ, quando passou o cabo do reboque o tripulante caçou o cabo jogando a vela do Sudoca contra o toldo da traineira, provocando um rasgo de cerca de um metro como se fosse um pedaço de papel.

Enquanto o Celso desfrutava da hospitalidade da traineira, eu fiquei no Sudoca sacudindo com as vagas da boca da Baía, com ventos fortes e a vela rasgada.

Logo em seguida um bote rebocando três 420 de velas recolhidas, enfileirados transferiu para a traineira os mesmos. Iniciamos neste momento outra espera, aguardamos um outro barco menor para nos levar ao ICRJ, enquanto outra equipe de resgate e um First 40.7 tentavam retirar um Snipe que estava com tão somente o bico de proa para fora d´água.

Depois de muita espera chegou o barco para o nosso reboque, transferimos os cabos e enfileiramos o Sudoca, um Laser os três 420.

Iniciou-se a terceira parte do resgate, o reboque até o ICRJ. Com o sudoeste vindo da direção do ICRJ, muito forte, a minha vela acabou de rasgar completamente, me forçando a retirar a retranca em meio aos vôos de vaga em vaga.

Finalmente chegamos a piscina do ICRJ próximo as 17h.

4. O que passamos a pensar após o que vimos e sentimos pessoalmente

·        Velejar tem que ser um prazer e não um sacrifício, portanto, verifique as condições meteorológicas antes de velejar ou participar de uma regata. Não vale a pena expor a saúde e integridade física em situações extremas na prática de um esporte sem compromisso comercial. Seja você mesmo, conheça suas limitações, não se influencie por outros velejadores que talvez tenham condições técnicas / físicas superiores a sua para a prática do esporte em situações de stress. Só para provar que você é o máximo? Prá quem?

·        Nunca veleje em barcos monotipo sem colete salva-vidas.

·        Estude as regras de salvatagem e treine, mas treine muito.

·        Evite velejar com proeiros inexperientes em regatas, sem o devido treinamento.

·        Caso o vento aumente acima da capacidade de domínio do barco, procure se abrigar em águas mais protegidas. Afinal você não veste as cuecas por fora das calças, você não é um super herói.

·        Confira todo equipamento da embarcação antes de velejar, tais como rebites, parafusos, cabos e etc.  

·        Seja organizado com os cabos no barco. Preste atenção no posicionamento deles, principalmente da escota. Fazendo isso você poderá até virar, mas não ficará preso ou perderá tempo para se soltar numa situação de emergência.

·        Nunca se separe do seu barco virado, mesmo com salva-vidas vestido. Ele é o primeiro a ser visto por uma equipe de salvamento, além de protegê-lo fisicamente de eventuais colisões com outras embarcações.

                                                                                                                                 Celso / Renato